segunda-feira, 30 de novembro de 2009

“É só o fim”

Na metade do século passado, depois da Europa ter sido devastada pelas duas grandes guerras, as “mentes pensantes” do mundo imaginaram um sistema novo para evitar tamanha destruição. Ao invés dos povos disputarem suas diferenças em confrontos longos e sangrentos, decidiu-se que iriam definir suas pendengas em disputas econômicas. Um país não se sobreporia a outro pela destruição, pela escravização, mas sim pela dominação econômica. Assim nasceu o sistema em que vivemos hoje.

Esta mesma filosofia de vida foi adotada por cada indivíduo. Hoje oprimo e subjugo outras pessoas pelo que tenho, por puro sadismo, pelo simples fato de poder mostrar que sou maior, que tenho mais. O “pobre coitado” que não tem, vive sonhando em ter mais que eu para poder oprimir-me também. Afinal de contas, com um super carro do ano chamo atenção, principalmente das fêmeas, assim posso ter mais fêmeas e procriar muito, disseminar meu gene pela face da terra, perpetuando minha linhagem. Pensando bem, em que isso me difere de um pavão que abre as penas do seu lindo rabo junto de outros para que a fêmea possa escolher o que mais lhe agrada, o que tem a maio calda, a mais bonita? Depois de milhares de anos de evolução, depois de construirmos cidades, civilizações, impérios, percebo que sou dominado por meus instintos, como o pavão ou qualquer outro animal.

Porém as “mentes pensantes” do mundo não previram que o sistema que elas inventaram para preservar a humanidade, mais cedo ou mais tarde vai destruí-la. Hoje eu quero ter mais, sempre muito mais, não importa o quanto eu tenha, sempre quero mais. Quero ir ao meu trabalho com um veículo só meu, vou sozinho. Se este carro for muito grande, tiver um potente motor, muito melhor. Eu até poderia ir de ônibus com outras pessoas que não podem, mas querem ir, como eu, sozinho dentro de seu próprio veículo. No entanto é desconfortável, o transporte público não funciona, é muito mais fácil eu comprar um automóvel exclusivamente meu do que exigir um transporte coletivo melhor. Não importa às “mentes pensantes” melhorarem o transporte coletivo, se eu tiver a possibilidade de ter um veículo meu não me importo com isto, e para elas é muito fácil proporcionar-me o que quero ao que preciso. Utilizam comigo a evolução de uma política muito antiga, a política de “pão e circo”. Enquanto eu tiver meu veículo para ir onde quiser, enquanto eu puder encher o tanque de gasolina, enquanto eu puder, durante o tempo em que não estiver trabalhando, ir à lugares onde encontro outros como eu, onde posso consumir altas doses de álcool e drogas, comer um quilo de carne (que precisa de dez quilos de vegetais para ser produzida), não vou reclamar, estarei feliz e certamente não os questionarei.

É dessa maneira que a humanidade vai se proliferando, como um vírus imbecil que, ao crescer, mata seu hospedeiro. Não o mata rapidamente, vai paralisando lentamente órgão a órgão, até que este morra, sem um grito final, apenas muita dor. Isso é fim, “é só o fim”.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Inversão de Valores

Não gosto muito de utilizar frases feitas, mas neste caso convém, “os valores da sociedade estão invertidos”. Agora para ser poético, quem busca conhecimento hoje? Chegamos a um nível assustador, as pessoas que sonham em serem médicos podem até dizer que o querem para “poder ajudar as pessoas”, mas quanto de verdade há nessa afirmação? Além de, muitas vezes, esta afirmativa ser falsa, o camarada ainda não tem nem criatividade para descrever sua própria “motivação”, coloca logo a mais usada, “ajudar as pessoas”.

Não acho que eu seja o melhor exemplo para um jovem, porém estudei e trabalho duro para poder levar a minha vida, hoje meu trabalho sustenta minha família, tenho um carro e um lugar pra morar, não é muito, mas isto me deixa muito feliz, pois de onde vim muitas pessoas não fazem curso superior e passam a vida sem uma profissão definida. Pois bem, muitas dessas pessoas a que me referi não me invejam nem um pouco (até aí tudo bem, não acho que deva ser invejado), no entanto invejam um policial corrupto que trabalha pouco e ganha muito, não através do mirrado salário de servidor público, mas pelas extorsões e propinas pagas por quadrilhas que roubam cargas, contrabandeiam eletrônicos e cigarros, além do tráfico de drogas e armas. Algumas pessoas invejam o fato de se poder roubar a vontade e não ter nem a ameaça da demissão, afinal de contas para um servidor público ser exonerado é muito difícil.

Por estes motivos digo que os valores estão invertidos, ao invés de escolher uma profissão pelo conhecimento que ela proporciona, pelo trabalho a realizar ou até mesmo pelo status que esta concede, passa-se a escolher um trabalho, única e exclusivamente, pelos ganhos que esta pode lhe proporcionar. Muito provavelmente, um estudante que resolve cursar medicina norteado por estes valores, tornar-se-á um médico que prescreve este ou aquele medicamento baseado apenas no valor da comissão que o laboratório repassa, o que menos importa é a saúde do paciente, até mesmo porque, se este se curar na retornará para mais consultas e para comprar mais medicamentos. Utilizei os médicos e policiais apenas como exemplo, a grande maioria dos profissionais dessas áreas é descente, mas infelizmente tem sua profissão manchada, como todas as outras, por pessoas sem escrúpulos.

Vejo os valores da sociedade hoje assim: “cada um por si, para justificar nossas mazelas, a culpa é do estado, eu não tenho nada a ver com isso”.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

A solução é mudar Foz do Iguaçu de lugar?

Acabo de ler uma reportagem, que cita uma pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, onde Foz do Iguaçu é apontada como a cidade “mais perigosa” para jovens entre 12 e 29 anos. Até aí nenhuma novidade. Na mesma reportagem consta a opinião de uma especialista em psicologia que relaciona os números da pesquisa à localização da cidade, na tríplice fronteira. Até aqui, para variar, nenhuma novidade. Será que o problema de Foz do Iguaçu realmente é sua localização? O que fazer? Mudar a cidade de lugar?

Se o problema da violência fosse simplesmente referente à posição geográfica da cidade, simplesmente bastaria o governo brasileiro baixar um decreto proibindo a construção de qualquer cidade numa distância de cinqüenta quilômetros de qualquer fronteira. No entanto não é a posição da cidade, na fronteira, o motivo da violência. Os motivos são vários e podem ser enumerados, falta de políticas públicas e de segurança (não acredite que mais policiais armados até os dentes resolveria); falta de políticas para a geração de renda e empregos (principalmente industrialização e entretenimento); pouco combate à corrupção da fiscalização que permite que armas, drogas, cigarros, eletrônicos contrabandeados trafeguem por mais de mil quilômetros dentro do país até chegar aos pontos de consumo. Esses são apenas alguns problemas. Certamente, se fossem tomadas medidas concretas, atacando o “caule” e não apenas os galhos, a realidade seria diferente.

Pesquisas são baseadas simplesmente em números levantados através de ocorrências registradas pela polícia, porém esses dados deveriam ser mais esmiuçados. Qual percentual dos jovens mortos em Foz do Iguaçu é realmente de Foz do Iguaçu? Dos presidiários que lá estão quantos são de Foz? Quantos foram presos levando drogas e armas para outras cidades? A violência constatada em Foz do Iguaçu não pode ser imputada apenas á região. Em Foz está a violência de todo o Brasil.
Puerto Iguazú, na Argentina, faz fronteira com outros dois países, assim como Foz do Iguaçu. A cidade é muito menor que a irmã brasileira, porém se realizarmos uma análise percentual nos dados de violência desta, notaremos que estes serão muito menores que os daquela. Assim se vai por chão a tese de que a violência de Foz do Iguaçu dá-se por esta estar na fronteira.

Ou os governos, municipal, estadual e federal tomam medidas que realmente surtam efeito contra a violência, ou continuam usando a desculpa de que os problemas são causados pela fronteira. Logo proporão a mudança da cidade de lugar.