domingo, 12 de setembro de 2010

Pago, logo existo (ovelhas)

Esta é a lógica da vida moderna, pago, logo existo. Há menos de 400 anos René descartes disse “Cogito ergo sim” (Penso, logo existo). Hoje essa frase já não faz mais nenhum sentido. O significado da palavra existência mudou totalmente. Afinal de conta, o que é existir hoje? O que é necessário para uma pessoa existir?

Até mesmo o significado da palavra pensamento mudou. No que consiste pensar? Em receber informações de empresas de notícias e refletir um pouco sobre isso? Eu acredito que não. Muitas vezes tenho a impressão de que nem mesmo a pessoa que escreveu a notícia pensou. Afinal de contas, o objetivo não é noticiar, é simplesmente gerar lucro. Hoje, infelizmente, praticamente qualquer atividade existe apenas para gerar lucro.

O objetivo é mostrar-nos alto atraente, algo desejável. Um perfume, uma roupa, uma bebida, um veículo, qualquer coisa, desde que esteja sob uma marca forte, que vai nos fazer querer possuir aquilo, muitas vezes não por necessidade ou por suas funcionalidades, mas pelo simples fato de ter “i” no início do nome, apenas para dar status. Mas nós queremos muito, e vamos possuí-lo, afinal de contas todo mundo o tem!
“Ótimo”, já possuímos o que queríamos tanto, e agora? Agora vamos comprar acessórios, atualizações, complementos, vamos dar manutenção ao que tanto queríamos. Mas não por muito tempo, apenas até lançarem o novo modelo. Quando isto acontecer vamos dar um jeito de passar o antigo bem à diante, vender para alguém que não pôde comprá-lo quando era o último modelo, ou até mesmo abandoná-lo em alguma gaveta.

Pronto, agora temos o último modelo. Vamos exibi-lo para quem não o pode tê-lo. E o que não pode tê-lo vai cobiçá-lo, desejá-lo e invejá-lo. Em algumas vezes vai até tomá-lo à força pelo simples desejo de possuí-lo.

Hoje, este é o significado de existência, é ter, pagar. Só temos importância até o momento em que estamos dando lucro. Quando temos boa aparência, quando gastamos muito, entramos em lojas e somos bem atendidos. O garçom, ávido em receber uma gorda gorjeta, sorri-nos e promete-nos atender antes dos demais, menos importantes, menos existentes. E somos tratados assim, até nos tornarmos menos existentes que os outros. Hoje somos ovelhas, regularmente tosquiadas, somos bem tratados enquanto nosso pêlo é abundante e volumoso, porém, assim que e o pêlo ficar feio, ralo, todo o lucro que já demos não vai valer de nada, seremos sacrificados. Afinal de contas, na sociedade atual a lógica é, pago, logo existo.